
Foi feroz, equilibrado e emocionante. Um jogo grande que transpirou isso mesmo, sem demasiada negociação, sem toca-e-foge, com duas equipas a colocarem em campo aquilo em que são fortes, sem especulação ou medos, táticas de recurso. O primeiro clássico do ano foi, antes de tudo, um belo espectáculo de entretenimento futebolístico, em que o FC Porto venceu o Sporting por 2-1, em Alvalade, reclamando novamente uma casa onde nas últimas época tinha vindo a sofrer.
O primeiro jogo grande em Portugal para Farioli foi feito de coragem e convicção nas suas ideias. O Sporting de Rui Borges não deixou de ser a equipa dinâmica e afirmativa no ataque das primeiras jornadas, mesmo que com menos Pote e menos Trincão. No final, a vitória fez-se de confiança no trabalho, mas também de um pózinho de talento individual, tão necessário quando no mesmo campo estão duas equipas com propostas diferentes, é certo, mas de valias muito equiparadas. E de uma coisa podemos todos ter a certeza: há campeonato.
Frente a frente estavam dois estilos diferentes, corporizados pelas duas equipas mais afinadas deste início de temporada. Ao jogo de duelos do FC Porto de Farioli, da pressão alta pitbulliana, o Sporting responde com a mobilidade do seu ataque, as ligações forjadas já na época passada, num futebol de posse e construção, com várias soluções para apresentar. Perante tantas diferenças, o jogo dificilmente seria emperrado, encaixado, aborrecido.
Mas não se esperaria, certamente, que ainda nem um minuto estivesse no relógio e já uma bola viajava diretamente para o poste de Rui Silva, depois de uma saída inicial bem estudada pelo FC Porto: bola atrasada para Diogo Costa e os mui competentes pés do titular da seleção nacional a lançar a equipa para a frente. Borja Sainz, de bicicleta, quase surpreendia o Sporting na confusão que se formou na área leonina, apanhada desprevenida. Não muito depois, Luis Suárez, na quina da área, rematou em cima de Nehuen Pérez, com a bola a rasar a barra.
Os primeiros minutos foram de mais posse da equipa da casa, mas rapidamente o FC Porto trouxe para cima da mesa o seu futebol de repressão do adversário, aplicando pressão draconiana e assediando, em sequência, a área do Sporting. A pressão também é feita de risco e arriscou muito Moura aos 21’, permitindo aos leões avançar para a baliza com três homens isolados. Pote já sentia a adrenalina da bola a bater na rede quando lhe surgiu Alberto Costa, vindo de uma desenfreada corrida, para lhe cortar a alegria num eficaz combo corte-carrinho.
Seria uma espécie de canto do cisne do Sporting na 1.ª parte, amarrado a partir daí pela intensidade do FC Porto, que farejava cedo as tentativas de saída da equipa de Rui Borges. Trincão andou desaparecido, culpa de Varela. Defensivamente, Mangas sofria. Do outro lado, o talento individual de Rodrigo Mora, titular por lesão de Gabri Veiga, incomodava Fresneda.
O intervalo faria bem aos leões, dando de beber ao FC Porto o seu próprio veneno no início da 2.ª parte: pressão constante, posse de bola asfixiante, Kochorashviili e Hjulmand em alta rotação. E foi com o FC Porto restringido ao seu meio-campo que surgiriam, seguidos, os dois golos dos dragões. O primeiro, aos 60’, num desenho bem gizado, com Zaidu a descobrir Varela e este a virar o jogo para a direita. A ligação entre William e Alberto fez-se de olhos fechados, com o lateral português a cruzar na área para Luuk de Jong encostar ao segundo poste. Simples. Quatro minutos depois, ainda com o Sporting a tentar reagir, momento de inspiração individual de William Gomes, com um grande remate abaulado, tão potente quanto colocado, a entrar no canto mais afastado da baliza de Rui Silva.
O bom início de 2.ª parte do Sporting esfumava-se em poucos minutos de iluminação portista, com a atitude de resgate do jogo a vestir-se agora de necessária urgência. Apareceu mais Trincão, também Luis Suárez, Farioli respondeu reforçando o meio-campo com Pablo Rosario. Rui Borges arriscou o que pôde tirando Kochorashviili para fazer entrar um Harder em jogo de despedida. Quenda trouxe a imprevisibilidade que faltava a Geny, do lado esquerdo os cruzamentos de Mangas iam abrindo fissuras na coesão defensiva do FC Porto. Aos 74’, o Sporting entraria de novo no jogo quando uma bola do lateral português encontrou uma carambola entre Bednarek e Nehuén, que marcaria na própria baliza.
Daí até final, o Sporting carregou e o FC Porto ia cheirando as oportunidades em contra-ataque. Suárez, aos 86’, teve a grande oportunidade para empatar, num remate forte que Diogo Costa travou com uma importante defesa, mas a pressão dos leões nem sempre se materializou em momentos de perigo.
À 4.ª jornada, o FC Porto dá uma demonstração de competitividade com Farioli, cedo a impôr a sua ideia, a ousar numa casa onde os dragões perderam nas duas últimas temporadas. Mas o clássico foi equilibrado, bem jogado, intenso de parte a parte. E isso são boas notícias para o que resta do campeonato, a precisar de uma injeção de forças tão distintas quanto harmoniosas e niveladas, feitas de convições e um bom ideário por trás. Assim está bem.