Como diz o povo, vamos lá a ver... então mas agora é crime ter uma vida?! Vamos mesmo continuar a debater cada governante, deputado, autarca que tem negócios imobiliários ou escritórios de advocacia ou atividades de consultoria ou mesmo terrenos por esse Portugal profundo, porque se aprovou — a larguíssima maioria dos deputados aprovou, já que PSD, Chega, IL e CDS votaram favoravelmente e a abstenção do PS serve o mesmo fim — a Lei dos Solos? E a seguir, vamos questionar a legitimidade de quem tem animais de companhia legislar sobre qualquer tema que os envolva? Ou lançar suspeitas sobre as intenções de quem defende a igualdade de género?

Se há crime ou suspeitas de ilegalidade, investigue-se, julgue-se e puna-se. Mas cuspir para o ar indiscriminadamente nunca acaba bem... Ainda menos quando o nevoeiro se estende da extrema-esquerda à extrema-direita, desacreditando a classe política e os órgãos de poder por inteiro.

Será porque o tema motivou uma moção de censura ao governo, dirão. Uma moção de censura que todos os que não a propuseram criticaram, por ser oca e despropositada, mas cujo tema ninguém se escusou a comentar ad nauseum. Foi o assunto da semana em todos os fóruns, foi o tema do dia mesmo quando se realizou o desejo que tanta urticária provocou por aí: saber como pensa o almirante.

Curiosamente, após meses de críticas e discursos inflamados sobre a ausência de posicionamento de Gouveia e Melo e a consequência desse desconhecimento numa perfilada candidatura à Presidência da República, ninguém quis saber do esclarecimento. No dia em que o almirante quebrou o silêncio (exatamente no momento em que disse que o faria), ninguém quis comentar o fim do tabu. Salvo o Expresso, que o publicou, e breves notas de rodapé que pretenderam esvaziar um artigo de opinião que tem sumo para matar a sede de todos os que penavam por não saber para onde pendiam as suas vontades, pouco sobrou.

O comentariado nacional preferiu fixar-se na censura de morte anunciada e na repetição de argumentos sobre a espuminha do dia e os deméritos de Ventura — que já não são os casos do seu partido, repare-se, levando a pensar se não terá tido, afinal, mais uma vitória.

Além do debate oco, o que sobeja são as ideias bem traçadas por Gouveia e Melo, que retratam claramente o que lhe vai na cabeça e as preocupações que traz na alma. E talvez seja isso que assusta quem antes quis culpá-lo de não se definir, de não se lhe conhecer pensamento político — como se desconhecê-lo num militar não fosse precisamente um traço de caráter.

Ainda antes de dizer-se candidato, o almirante disse ao que vinha. E com absoluta clareza pôs-se a milhas do pântano em que nos vimos afundando. Falou para as pessoas, falou para as famílias, falou para as empresas. Falou para os portugueses. Pôs a livre iniciativa e o mérito acima do seguidismo e do Estado omnipresente e mostrou apoiar não o país de mão estendida mas a capacitação de todos, para que todos possam contribuir para melhorar a própria vida e a do país. Revelou o que pensa de interesses, enviesamentos e compadrios que se sobrepõem ao bem comum. E foi límpido quanto ao que considera serem os deveres e os limites dos poderes presidenciais, mas também o papel das instituições, dos partidos, dos órgãos de poder e a inviolável separação de poderes.

O que saiu do discurso? Que o almirante se situa ao centro (o que só surpreenderá quem foi na narrativa ensaiada por alguns de que estava colado à extrema-direita), que o PR não deve ser um apêndice de interesses partidários e que acha que só em circunstâncias muito especiais deve haver dissolução do Parlamento.

Infelizmente, serão apenas essas três ideias — que pouco dizem aos portugueses — que passarão para a maioria das pessoas. Já sobre imobiliárias, devemos estar perto de saber tudo. A começar pela certeza de que quem faz negócios com casas não é flor que se cheire e mais valia encerrá-los a todos em Vale dos Judeus.

Agora que o almirante se mostrou institucionalista e liberal, resta saber quanto tempo se levará a criar novos argumentos para alimentar a narrativa de que um militar como Presidente é prenúncio de dirigismo.

Diretora editorial