
O mais recente balanço das candidaturas ao ensino superior trouxe um dado preocupante para a economia digital em Portugal: houve menos 16,7% de alunos a escolher cursos de competências digitais, como Engenharia Informática, Ciências de Dados e formações similares. São quase menos 1.500 alunos, num ano em que ficaram por preencher cerca de 2.000 vagas – metade delas nos politécnicos e em instituições fora de Lisboa e Porto.
Este recuo acontece num contexto em que Portugal já apresenta défice estrutural de licenciados em TI. Apenas 2% a 3% dos diplomados portugueses são destas áreas, abaixo da média europeia (4% a 5%) e muito distante de países como Estónia ou Irlanda, onde a percentagem ronda os 8% a 10%. Ao mesmo tempo, a empregabilidade dos recém-licenciados ultrapassa os 96%, uma das mais elevadas no ensino superior.
Fatores que explicam a queda
Para Francisca Matias, responsável pela estratégia de impacto social e empreendedorismo da Fundação Santander, a descida acompanha uma quebra geral no número de colocados no ensino superior, que recuou 12% na primeira fase. Questões demográficas, custos da habitação para estudantes deslocados e mudanças nas regras de acesso – em particular a obrigatoriedade do exame de matemática – são apontados como fatores determinantes.
Outro problema de fundo prende-se com a escassez de professores de matemática e informática no ensino secundário, o que agrava as dificuldades no acesso ao ensino superior nestas áreas.
Já Vanessa Zdanowski, diretora da 42 Lisboa, chama a atenção para o desequilíbrio entre a oferta e a procura dos cursos. Dos mais de 100 cursos analisados no país, há 17 que ficaram totalmente vazios, enquanto outros atingiram taxas de ocupação superiores a 80%. “Há cursos reconhecidos e apelativos que esgotam, mas há muitos que não despertam interesse, seja pela reputação, seja pela atualização dos conteúdos”, afirmou.
A redução de candidatos em áreas digitais preocupa as empresas, que enfrentam uma procura crescente por competências em inteligência artificial, cibersegurança e ciência de dados. Segundo Francisca Matias, cerca de 30% dos empregos em Portugal estão expostos ao impacto da IA, acima da média europeia, e a taxa de adoção destas tecnologias no país permanece baixa.
“Há risco de escassez de talento, o que pode comprometer a competitividade das empresas”, refere a responsável da Fundação Santander. Ainda assim, vê na situação uma oportunidade para acelerar políticas de upskilling e reskilling dos trabalhadores já no ativo.
Vanessa Zdanowski sublinha a importância da ligação estreita entre escolas e empresas: “O currículo tem de evoluir em sintonia com o mercado”. A 42 Lisboa já introduziu projetos de inteligência artificial no modelo pedagógico e lançou especializações em áreas como software para sistemas automotivos, em resposta direta às necessidades da indústria.
Alternativas e caminhos possíveis
Apesar do sinal negativo nas universidades e politécnicos, as escolas alternativas têm registado forte procura. A rede 42, presente em Lisboa e no Porto, deverá terminar o ano com 500 novos alunos, somando-se aos mil já inscritos, e mantém taxas de empregabilidade próximas dos 100%.
As duas responsáveis apontam várias soluções para inverter a tendência negativa:
- Refinar os currículos para maior especialização em áreas como IA, ciência de dados e cibersegurança.
- Aproximar academia e empresas, envolvendo estas últimas no desenho dos cursos.
- Investir em professores de matemática e informática, garantindo melhores condições de base no ensino secundário.
- Atrair mais mulheres para o setor, onde continuam sub-representadas.
- Expandir alternativas flexíveis e inovadoras de formação, como a 42, para mais regiões do país.
Um desafio estratégico para Portugal
O consenso é claro: sem reforço da formação em competências digitais, Portugal arrisca comprometer a ambição de se afirmar como hub tecnológico europeu. Embora o país esteja atualmente bem posicionado em rankings internacionais de digitalização, o decréscimo de candidatos mostra que há trabalho urgente a fazer.
Para Francisca Matias, “o futuro das empresas depende da capacidade de formar e requalificar continuamente pessoas”. E, acrescenta Vanessa Zdanowski, “não podemos esperar que o interesse ressurja por si só; é preciso inovar, comunicar melhor e aproximar modelos pedagógicos do mercado”.