A resiliência da nossa região não pode esconder o risco crescente da desertificação humana e do desinteresse pela agricultura. Sem renovação no campo, aumentam os incêndios e perde-se território. É tempo de agir.

Mais uma vez, somos obrigados a voltar ao tema dos incêndios florestais em espaço rural. Agosto passou, mas a fase crítica não terminou. Embora a nossa região tenha sido relativamente poupada, o distrito de Portalegre registou dois ou três incêndios de maior dimensão e vários focos menores que, felizmente, foram controlados a tempo. No Norte e Centro do país, os números são avassaladores, milhares de hectares consumidos pelas chamas.

A nossa região tem sido apontada como resiliente. E com razão. Os montados e campos abertos de pastagens funcionam como barreiras naturais à propagação do fogo. A pecuária extensiva, ainda presente, contribui para a redução da matéria combustível. Os animais, neste contexto, são aliados silenciosos na prevenção. Os meios aéreos e terrestres têm feito um trabalho notável, mas há um fator que não se pode ignorar: a presença humana.

Mais pessoas no campo significam mais olhos atentos, mais deteção precoce e, consequentemente, menos destruição. A desertificação humana do interior é, portanto, um risco não apenas social e económico, mas também ambiental.

Neste contexto, é alarmante constatar que os cursos superiores ligados às Ciências Agrárias estão a perder atratividade. Os resultados das candidaturas ao ensino superior mostram vagas por preencher em praticamente todas as instituições, incluindo centros de referência como Lisboa e Évora. Alguns cursos não tiveram sequer um único candidato.

Este desinteresse dos jovens pela agricultura é um sinal claro de que algo está a falhar. Se não houver renovação geracional no setor, não só se compromete a produção agrícola, como se agrava o abandono do território e com ele, o risco de incêndios. É um ciclo vicioso que exige reflexão profunda e ação política urgente.

Com a União Europeia a preparar uma nova Política Agrícola Comum (PAC) para o período entre 2028 e 2034, é imperativo que Portugal aproveite esta oportunidade para repensar o modelo agrícola. A nova PAC será diferente da que conhecemos, e a nossa resposta deve ser estratégica, ambiciosa e centrada na valorização do território rural.

A verdade é que o fogo faz parte dos mecanismos naturais do Mediterrâneo. Espanha, sul de França, Itália, Grécia e Albânia enfrentam os mesmos desafios. O que nos resta é aprender a viver com este fenómeno, minimizando os estragos através de políticas eficazes, investimento no território e valorização da agricultura.

A nossa região tem dado provas de resiliência. Mas essa força não pode ser tomada como garantida. É preciso reforçá-la com mais presença humana, mais formação, mais investimento e mais visão estratégica. O futuro do campo é o futuro de todos nós.

O Governo já anunciou medidas de apoio aos agricultores afetados pelos incêndios. É fundamental que os interessados se informem e acedam rapidamente aos fundos disponíveis. Estes apoios existem para momentos como este e devem ser aproveitados sem demora.

A reflexão está lançada. Que não fique apenas no papel.