
Ainda que nos últimos tempos o tema tenha estado mais presente, nada do que está a acontecer neste entre Israel e a Palestina é uma novo. O conflito entre ambos conta com mais de um século de história, sendo que a atual guerra entre Israel e o Hamas se trata de mais um capítulo. O capítulo que levou a uma situação extrema na Faixa de Gaza.
Gaza é uma faixa de terra cercada por Israel, Egito e o Mar Mediterrâneo. Tem 41 km de comprimento e 10 km de largura. Lar de cerca de 2,1 milhões de pessoas, antes da guerra era um dos lugares mais densamente povoados do planeta.
A 7 de outubro de 2023, combatentes do Hamas lançaram um ataque a partir de Gaza, matando cerca de 1.200 pessoas em Israel e fazendo 251 reféns. Isso desencadeou uma ofensiva militar israelita em grande escala, por terra, mar e ar. Mais de 60 mil pessoas já perderam a vida desde o início do conflito.
Na semana passada, em consequência de tudo isto, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou oficialmente a situação de fome na Faixa de Gaza pela primeira vez. António Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou mesmo que esta realidade é um “desastre feito pelo homem”, referindo-se à atuação de Israel no local, e se trata de um “falhanço da Humanidade”.
É que a ajuda humanitária continua a não chegar a Gaza. A embarcação onde seguia a ativista sueca Greta Thunberg é um dos exemplos disso mesmo, uma vez que o grupo foi impedido de entrar em Gaza e deixar os bens de primeira necessidade que levavam a bordo. Mesmo com todas as atenções voltadas para a viagem. Este ano houve uma embarcação que foi bombardeada por dois drones, no passado uma outra viu um barco ser arremessado contra ela e houve ainda outra que foi atacada por soldados israelitas, o que levou à morte de 10 dos tripulantes.
Mas há quem não desista e no próximo domingo seguirá uma nova flotilha humanitária internacional com destino a Gaza. A maior até hoje. E desta vez contará com três portugueses a bordo: a atriz Sofia Aparício, o ativista Miguel Duarte e a deputada e líder do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.
“A Mariana Mortágua foi contactada pela Global Sumud Flotilla, assim como muitas outras pessoas, deputados e figuras públicas em geral, para fazerem parte desta missão. E ela lembrou-se de outras pessoas, entre os quais eu e a Sofia Aparício”, conta Miguel Duarte à Forbes. “Estou com confiança de que chegaremos a Gaza e a razão é que nunca houve uma flotilha tão grande. Só de Barcelona vão sair mais de 30 barcos, vão sair dezenas de barcos de vários portos no Mediterrâneo. Dezenas de barcos, centenas de pessoas de mais de 40 países. Esta flotilha é tão grande que o número de barcos, bem como o número de pessoas, é maior do que todas as outras flotilhas combinadas. Portanto, a atenção sobre isto será grande. E esperamos que haja mobilização de muita gente nos países europeus para fazer pressão para que Israel não faça o mesmo que fez nas outras flotilhas, quer seja capturar-nos e levar-nos para Israel ilegalmente ou atacar-nos como já fez. Penso que quantos mais olhos houver sobre nós e sobre Gaza, mais improvável é que isso aconteça”.
Levar ajuda humanitária a Gaza
“Só uma pessoa inconsciente é que tomaria esta decisão de ânimo leve”, explica Sofia à Forbes, falando do momento em que decidiu integrar a missão. Mas a determinada altura, o que se torna mais difícil é dizer que não. “Conseguindo organizar a minha vida profissional e pessoal, não poderia não vir. Ser-me dada a oportunidade de fazer alguma coisa, mesmo que seja uma micropartícula no oceano, eu não ficaria bem com a minha consciência se não viesse. Para mim é assustador, dá-me muito medo o que o mundo inteiro deixa acontecer há décadas e está a deixar acontecer agora em Gaza. É desumano e se nós continuamos a deixar que um qualquer Estado continue a sair impune com todos os crimes que comete, enquanto humanidade estamos todos em perigo”.
E Miguel partilha do mesmo sentimento. Apesar de não ser uma decisão fácil de se tomar, quando se olha para aquela que é a realidade das pessoas que estão em Gaza, torna-se necessário fazer alguma coisa. “É necessário chamar a atenção para este tema, trazer ajuda humanitária às pessoas de Gaza e utilizar a plataforma a que temos acesso e que temos o privilégio de ter para passar a mensagem de que este genocídio é inaceitável, de que a fome imposta às pessoas de Gaza pelas forças israelitas é inaceitável, que a ocupação é inaceitável, que o apartheid é inaceitável. É absolutamente urgente fazer esta missão”, afirma. Missão essa que, segundo o próprio destaca, é apenas mais um passo num movimento que luta há anos e tem os próprios palestinianos na frente de combate.
A bordo levam bens de primeira necessidade, como água, alimentos e medicamentos. O objetivo é conseguir entregá-los a quem mais precisa e, por isso, esperam também conseguir abrir um corredor humanitário. “Fazer com que fique um canal aberto para mais ajuda poder entrar em Gaza. Sabemos que é muito difícil concretizar o nosso objetivo, mas também sabemos que ficar sentado no sofá não faz nada, portanto temos de tentar”, diz Sofia.
O papel de Portugal
Numa altura em que todo o tipo de informação circula, o grupo de portugueses deixa clara a mensagem que espera que esta missão passe a todos os cidadãos. “É uma mensagem de esperança, de resistência e de que se os nossos governos não fazem nada, nós, enquanto pessoas comuns, temos que nos organizar em resistência civil e temos que nos proteger uns aos outros, aos mais próximos e aos que estão mais longe também”, diz Sofia.
E sim, a mensagem é também para o governo português. E Miguel divide-a em dois níveis. “O primeiro nível, mais restrito à nossa missão em particular, eu acho que o governo português tem a responsabilidade moral de pôr em prática todos os esforços diplomáticos para garantir que esta ajuda humanitária consegue chegar a Gaza em segurança”, afirma.
E neste ponto Mariana Mortágua poderia ser um trunfo, uma vez que, como a própria afirmou em conferência de imprensa, o facto de ser deputada faria como que tivesse uma “proteção diplomática” que seria “útil a esta missão”. Só que Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros, afirmou em entrevista ao Observador que o governo não terá essa obrigação de garantir a proteção da flotilha. Porquê? Segundo o próprio, por ser uma iniciativa autónoma.
Mas a mensagem para a esfera política não termina aqui. “Seria de esperar que o governo português cortasse relações diplomáticas e comerciais com o exército israelita. Na verdade, isto não é um problema deste governo, é um problema de sucessivos governos portugueses. O mínimo de decência seria estas relações serem cortadas e que sanções fossem aplicadas a Israel. Por outro lado, também é preciso dizer que as forças armadas portuguesas têm acordos absolutamente vergonhosos com empresas de armamento israelitas, empresas essas cujo armamento está, neste momento, a conduzir o massacre em Gaza. O mínimo de decência implicaria que estes acordos acabassem imediatamente”, conclui Miguel.