
Heorhii Sudakov será, ao que tudo indica, a cereja no topo do bolo do mercado de verão do Benfica, mesmo que as qualidades de Enzo Barrenechea, Amar Dedic, Richard Ríos e Franjo Ivanovic mereçam reconhecimento e provavelmente a porta de entrada na Luz ainda não fique fechada.
O jovem ucraniano de 22 anos, há muito seguido pelos principais emblemas europeus, será, em tese, o elo que faltava ao meio-campo dos encarnados. Elegante, criativo e com uma inteligência futebolística elevada, promete ajudar a desbloquear a equipa em termos ofensivos, oferecendo ainda uma versatilidade que o tornará sempre referência, em caso de boa adaptação à nova realidade, nos principais sistemas usados por Bruno Lage: o 4x3x3, o 4x2x3x1 e o 4x4x2.
Sudakov nasceu a 1 de setembro de 2002 em Bryanka, cidade da região de Luhansk, no leste da Ucrânia. Aos 22 anos, é já uma das maiores certezas do futebol do seu país. Formado em grande parte no Shakhtar Donetsk, com início no Sokil Bryanka na terra natal e ainda uma curta passagem pelo Metalist Kharkiv, estreou-se na equipa principal dos Mineiros em 2020, numa altura em que o clube já enfrentava uma realidade amarga: A guerra, que faria o clube andar de casa às costas, assentando arraiais ao longo do tempo, e mediante as exigências das competições, em Kiev, Lviv, Varsóvia, Cracóvia, Hamburgo, Gelsenkirchen e Ljubljana.
Em fevereiro de 2024, renovou contrato até dezembro de 2028, demonstrando a confiança do clube no seu desenvolvimento.
A rápida evolução até à afirmação
Desde a estreia, o crescimento foi progressivo e veloz. Figura decisiva na conquista do campeonato ucraniano em 2024, convertendo o penálti que selou o título, já antes se tinha destacado no Europeu Sub-21 de 2023, em que marcou três golos e ajudou a Ucrânia a chegar às meias-finais e, por consequência, aos Jogos Olímpicos de Paris.
Internacional sénior desde 2021, a sua afirmação nos AA surge a partir de março de 2023, com o arranque da qualificação para o Europeu. Nos 26 jogos que se seguiram, apenas não jogou o último, diante da Nova Zelândia. Foi titular em 23.
Terá sido a má prestação da Ucrânia na Alemanha, na fase final do Euro, em que não passou do grupo inicial, a fazer arrefecer, em parte, o interesse que já se acumulava à sua volta.
Os números da última temporada
Na época passada, Sudakov participou em 37 jogos. Marcou 15 golos (13 na liga, o que o tornou o terceiro melhor marcador, e 2 na Liga dos Campeões). Além disso, registou seis assistências. Na Liga dos Campeões, participou em oito jogos, marcando dois golos em 701 minutos. Na atual temporada, assinou dois passes para golo, porém ainda não marcou.
Na Liga das Nações deste ano, esteve em seis jogos. Marcou um golo e assistiu para outro, com impressionantes 89,5% de precisão de passe, velocidade máxima de 32,08 km/h e 9 quilómetros percorridos por partida. Já na última Champions, jogou 2 encontros num total de 169 minutos. Conseguiu atingir os 85% de precisão de passe e uma velocidade máxima de 31,6 km/h.
Ao serviço do Shakhtar, já soma 147 jogos e 35 golos em todas as competições.
Os principais atributos
Pelas estatísticas acima, percebe-se que o passe é fundamental no seu jogo. Dotado de excelente visão, descobre muitos colegas com o passe progressivo. Depois, o controlo de bola é brilhante, desde a receção, orientada, ao drible em velocidade. As decisões normalmente andam a nível de craque.
A sua capacidade de criar profundidade e circulação entre linhas foi evidente desde a memorável exibição frente à Itália, em novembro de 2023, na Liga das Nações. Foi o gerador da superioridade tática dos ucranianos em toda a partida da BayArena.
Fisicamente, o porte é discreto —1,77 m e cerca de 72 kg —, mas isso não impede que seja explosivo nas transições.
Nos primeiros anos, apontava-se-lhe falta de explosão ou consistência de pressão na fase defensiva. Hoje, esses aspetos evidenciam melhoria, com maior resistência e impacto nas duas fases do jogo.
Para além do talento em campo, Sudakov destaca-se por uma personalidade forjada em adversidade. Ainda terá bem presente na memória os dias em que se refugiou com a mulher grávida em abrigos antiaéreos, experiência que contribuiu para moldar uma mentalidade resiliente e focada no presente. No Shakhtar, era cada vez mais um líder e a principal referência procurada em campo pelos colegas.
As comparações com Kevin de Bruyne, pela capacidade de inventar do nada passes de rotura, foram frequentes, embora ele próprio se enquadre mais no estilo de um James Maddison ou Phil Foden, como revelou numa entrevista ao The Telegraph, em 2023.
A cobiça por parte dos grandes clubes
A qualidade de Sudakov não passou despercebida aos tubarões do futebol europeu: Juventus e Napoli sondaram-no, tal como o Liverpool mais tarde, contudo a transferência não avançou. O amigo Mudryk tinha-o aconselhado a sair o quanto antes para um grande campeonato a fim de evoluir, mas o Shakhtar resistiu. Escudou-se numa alta cláusula de rescisão, que alguns apontavam a ser superior a 100 milhões de euros.
Acaba por sair para uma liga periférica como a portuguesa, provavelmente como salto intermédio, antes de chegar a esse patamar superior. Bruno Lage ganha um jogador cerebral, com criatividade e capacidade de desbloquear partidas, tanto em ataque posicional (o maior problema até aqui), como em transição.
O encaixe no Benfica
Embora os esquemas de Bruno Lage não privilegiem a simetria, muito por culpa dos vários papeis atribuídos a Aursnes, o técnico do Benfica tem distribuído os jogadores por três esquemas preferenciais: o 4x3x3, o 4x2x3x1 e o 4x4x2.
Se o 4x2x3x1 passou um pouco para plano B, depois do fracasso nas contratações de Thiago Almada ou João Félix, agora poderá voltar a ser promovido, se o treinador assim entender, a plano principal. Sudakov pode ser o 10 desse esquema.
Há também o 4x4x2, com Ivanovic e Pavlidis lado a lado, o que empurraria Sudakov para a esquerda. O ucraniano gosta de pisar esses terrenos, porém vai ser atraído gravitacionalmente para dentro, o que deverá também obrigar ao crescimento de Dahl no plano ofensivo.
Por fim, o 4x3x3. Sudakov teria guardado para si um lugar à frente do duplo-pivot, o que lhe daria missão semelhante à do 4x2x3x1, ou este seria desfeito, com a inversão do triângulo, isolando Enzo a 6, Ríos mais à frente sobre a direita e o ucraniano do lado esquerdo, com ordem para ser o cérebro e o mais ofensivo dos três.
Conclusão: o 10 que faltava
O talento e a personalidade tornam Sudakov um tiro certeiro do Benfica e numa, muito provável, figura da Liga. Há sempre a questão da adaptação e o ucraniano contará aí com um apoio importante: Anatolyi Trubin. No resto, terá de ser o clube a dar-lhe todo o conforto possível de forma a que se sinta em casa rapidamente.
Precisará de tempo para igualar a dimensão que já tinha no Shakhtar, obviamente num futebol mais competitivo e diferente daquele que estava habituado. Sempre pareceu alvo inacessível para a realidade encarnada e o facto de ter sido alcançado prova desde logo o esforço feito e o lugar que os encarnados lhe reservam para o futuro imediato.
O talento é inegável. É craque. Só que o futebol tem muitas variáveis.