
Que diferença deste FC Porto para os que foram vistos em épocas recentes! Ganhar em Alvalade a um Sporting que teve momentos de grande intensidade e brilhantismo não era para qualquer um, e fazê-lo quase sempre olhos nos olhos, criando situações de perigo e não mostrando qualquer tipo de complexo por estar a atuar num estádio onde não tem sido feliz, só aumenta o mérito da equipa de Farioli.
Antes de entrar propriamente na riquíssima história deste jogo, é obrigatório falar do minuto 64, quando William Gomes, 19 anos, dono e senhor de um pé esquerdo mágico, que mete cola na bola e a furta aos adversários com a naturalidade de quem respira ar puro, arrancou, da meia-direita, a cerca de 30 metros da baliza, um pontapé em arco, potente, belíssimo, e certeiro, que tornou infrutífera a estirada de Rui Silva. Mais felizes com o feito os portistas, menos satisfeitos os leões, mas aquele foi um golpe de génio que valeu o preço do bilhete. Semelhante, em qualidade, só a defesa de Diogo Costa, aos 86 minutos, já com o resultado em 1-2, ao parar uma bomba de Suárez, disparada da entrada da área, e que levava o selo de golo. Dois momentos de excelência que marcaram a linha entre vencedor e derrotado, neste clássico intenso e com futebol de grande qualidade.
ALGUMAS SURPRESAS
Do ponto de vista da arrumação das equipas, não houve qualquer surpresa no início da partida, embora Rui Borges e Farioli, especialmente este, revelassem preocupações especiais com algumas situações. O Sporting apresentou o 4x2x3x1 do costume e o FC Porto um 4x3x3 que manteve durante 79 minutos. O que não era esperado (e verificou-se por lesão de Gabri Veiga) era a chamada de Rodrigo Mora ao onze, que trouxe mais fluidez e classe à manobra portista, embora também abrisse mais espaços a meio-campo aos leões. A verdade é que com a velocidade de pensamento e execução de Mora, William Gomes e De Jong (deu uma verdadeira aula de como jogar de costas para a baliza e ganhar duelos aéreos, além de ainda ter feito o gosto ao pé), o Sporting, que logo aos 15 segundos apanhou um susto de todo o tamanho quando Borja Sainz rematou ao poste da baliza de Rui Silva, passou por vários calafrios e, embora tenha tido momentos de resposta consistente, esteve mais vezes em perigo do que o adversário.
Farioli, que estudou bem os leões, nunca deixou que Hjulmand recebesse a bola entre os centrais para iniciar as jogadas verdes-e-brancas, destacando para essa função, à vez, De Jong, William Gomes e Froholdt. Mesmo assim o Sporting tinha muitos trunfos para jogar e, apesar de ter demonstrado debilidade defensiva pela esquerda, onde Ricardo Mangas foi deixado demasiadas vezes desapoiado, foi dele o controlo da partida a meio da segunda parte, e, até, já depois de um pontapé perigoso de Pedro Gonçalves e de uma oportunidade de Trincão, podia ter marcado num contra-ataque aos 32 minutos quando o FC Porto se entusiasmou e esqueceu-se de deixar defesas na proteção a Diogo Costa. Mas nessa fase quem dava cartas eram os dragões, com um futebol filigranado que podia ter valido golos a Froholdt, por duas vezes e De Jong. Com os extremos, Borja Sainz e William Gomes bem abertos, e os médios interiores, Mora e Froholdt , pelo meio, a equipa do FC Porto foi quem esteve mais perto da vantagem numa primeira parte com momentos frenéticos.
GOLOS E MUDANÇAS
A segunda parte começou sem substituições ou variações táticas e foi o Sporting, através de um aumento de intensidade no momento de pressionar, que começou por condicionar o FC Porto, mandando no jogo. Aos 53 minutos Trincão fez brilhar Diogo Costa e esse foi o detonador que fez Farioli perceber que tinha de mexer na equipa. Fê-lo sem mudar o 4x3x3, apenas deu mais poder de choque ao meio-campo (Pablo Rosário, excelente, por Mora) e refrescamento à esquerda (Moura por Zaidu). Mexeu e foi feliz, porque à hora de jogo, até contra a corrente do jogo, um passe de William Gomes rasgou a direita para Alberto Costa, que cruzou para o 0-1 de De Jong. A este soco no estômago respondeu, de imediato, Rui Borges, ainda sem mudar o 4x2x3x1: saíram Catamo e Fresneda, entrando Quenda e Vagiannidis. Mas se Farioli foi feliz, Rui Borges nem teve tempo para isso: no minuto seguinte o mágico William Gomes tirou da cartola o coelho do 0-2, e um balde de água fria encharcou os sportinguistas. O técnico leonino foi novamente lesto na resposta e tirou Kochorashvili e meteu Harder, passando a 4x1x3x2. Sete minutos depois os leões reduziam (autogolo de Nehuén Pérez) e foi a vez de Farioli se mostrar ‘italiano vero’, colocando em jogo mais um central, Prpic, passando a um 5x4x1 que volta e meia se vestia de 5x3x2 com a aproximação de Deniz Gul a Samu.
Com este desenho, o FC Porto, comandado por Diogo Costa e Alan Varela, baixou linhas e tratou de defender a preciosa vantagem, algo que fez quase sempre com eficácia, exceção feita ao já aludido remate de Suárez (86), que Diogo Costa parou com a defesa da noite. Foi o canto do cisne do Sporting que, apesar dos oito minutos de compensação, foi caindo em convicção, ao ver-se sem muitas soluções para chegar ao empate. Os dragões saíram a rir de Alvalade, candidatos ao título de papel passado, após um dos melhores clássicos dos últimos tempos. E aquele golo de William Gomes, quem não viu, veja. Vale a pena.