A sinfónica Sérvia trata o basquetebol tal e qual como ele deve ser tratado. A habilidade era pouco conveniente para o modesto Portugal, a experimentar-se nestes veranis ajuntamentos das melhores seleções do mundo. No processo de autodescoberta, a equipa nacional encontrou em si uma combatividade latente que, por momentos, tirou o arco ao violino.

Portugal foi arruinado por um cérebro nu. Quando o sobredotado Nikola Jokic entra em campo é como se a redoma saísse de cima dos neurónios para que nos deliciássemos vendo com nitidez a formação de pensamentos racionais. Ainda assim, os sérvios rabujaram com o árbitro sempre que os portugueses os melindravam. Portugal estava a definhá-los a um ponto incomodativo, mas o menor talento ofensivo (35% de eficácia de lançamento de campo) não permitiu aproveitar a disrupção provocada no adversário.

Mário Gomes entregou a marcação do três vezes MVP da NBA a Neemias Queta e Miguel Queiroz, alternadamente. O poste sérvio (23 pontos e dez ressaltos em 22:37) começou por pouco atacar o cesto, usando a sua visão 360.º para servir colegas de frente para a sua nuca. A camaleónica defesa portuguesa estava a tentar não fornecer ajudas demasiado profundas, o que, pelo menos, obrigava a algum raciocínio.

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Foi do selecionador que, a meio de um desconto de tempo, veio a frase “eles são a Sérvia, nós somos Portugal”. O estatuto por vezes é mais um oponente. Os Linces transcenderam-se e mereceram não sair com uma derrota pela diferença aparatosa que a Estónia sofreu (34) frente ao mesmo rival. Só que um Portugal no auge ainda está longe da refinada curadoria dos melhores jogadores de um país em que os bebés nascem a fazer malabarismo com as chupetas.

Após o apuramento e antes do sorteio, Diogo Brito prestava à Tribuna Expresso uma declaração premonitória. “A minha maior referência é o Bogdan Bogdanovic, da Sérvia. Adorava poder defrontá-lo”, referia o internacional português com restos de alucinação causada pelo apuramento. O EuroBasket tem a capacidade de colocar os jogadores da seleção em frente de ídolos, uma equivalência que consolará qualquer desgosto que possam sentir.

No jogo de estreia, contra a Chéquia, Diogo Brito falhou todos os 11 lançamentos de campo tentados. Frente à Sérvia, marcou os dois primeiros arremessos e arrancou uma expulsão a Filip Petrusev após ser agredido num bloqueio defensivo. Portugal bem que precisava do extremo que tantas vezes é o fator-x e ele correspondeu.

O velcro de Aleksa Avramović cola-se aos atacantes em qualquer zona do campo. É um dos jogadores que melhor pressiona a bola na Europa. Travante Williams, a fazer o mesmo pela seleção nacional, destacou-se a nível semelhante. O jogador nascido no Alasca, um intrometido por natureza, gesticulava junto de quem marcava para sorver a bola à primeira oportunidade.

A estrela sérvia caminhava, como sempre faz, rumo a uma exibição dominante. Neemias Queta, desta vez, não se aproximou desse patamar. As linhas de passe para o jogador dos Boston Celtics tinham sempre alguém pronto a defletir as encomendas que quisessem seguir aquele caminho. Mais alarmante foi a falta de intervenção nas tabelas (dois ressaltos).

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A emperrada Sérvia (ao intervalo vencia apenas por 43-33) construía a vantagem em cima da baixa eficácia portuguesa. Após ressalto defensivo, a vingança servia-se em pontos marcados atravessando o campo sem dribles, passando a bola até esta chegar a quem corria para debaixo do cesto. A equipa de Svetislav Pesic veio mais funcional para a segunda parte e abriu uma diferença de 18 pontos, a maior que teve no encontro.

À escala, Neemias Queta e Nikola Jokic são dois astros. Este foi um daqueles dias em que a lua se mete à frente do sol fazendo parecer que a Terra não pagou a conta da luz. No entanto, Portugal foi ao EuroBasket com uma equipa. A atitude espartana demonstra que esta não é a seleção de um homem só (embora ele ajude muito).

Portugal conseguiu reagir. Diogo Brito (22 pontos), o padrinho de Neemias Queta na Universidade de Utah State, levou a audiência global a pensar que era mais do que um mero jogador da Segunda Divisão de Espanha. A seleção nacional ganhou o parcial do último quarto (20-16) e chegou a estar a meros sete pontos de empatar. Perante a perigosa aproximação, na prancheta de Pesic apareceram desenhos para tiros mortíferos.

Nos escombros desta derrota (80-69) não há muito que se possa aproveitar. Talvez apenas a 47.ª internacionalização de Rafael Lisboa, meta que lhe permite superar o responsável pelo apelido em número de jogos pela seleção sénior. Carlos Lisboa, cujo estatuto de melhor basquetebolista português de sempre só começou a ser contestado aquando do aparecimento de Neemias Queta, foi superado pelo filho num momento em que Portugal está no zénite. Um encontro de gerações que exemplifica bem o que se pode fazer para diminuir a diferença para países como a Sérvia.