
Marcar um golo de bicicleta é uma espécie de estrela conquistada por um futebolista. É um tento raro, tão raro quanto a sua beleza, digno dos mais arriscados movimentos circenses. Há quem nunca, ao longo de anos e anos de carreira, consiga marcar uma chilena, como se diz no mundo hispânico, por ser chileno o homem que popularizou o pontapé acrobático na Europa, David Arellano. Em contrapartida, há quem consiga duas num único jogo.
Como foi o caso de João Neves.
Na noite de sábado, frente ao Toulouse, o miúdo que joga com a camisola dentro dos calções fez da raridade algo aparentemente comum. Mentira, um golo de bicicleta nunca será comum, não importa quantos sejam marcados num único jogo. O primeiro foi logo a abrir o marcador, um pequeno toque com o pé para controlar a bola, um amortecer no peito e lá vai disto. Sete minutos depois, ainda mais complexo: o peito desta vez serviu para conter uma bola que vinha de um ressalto, seguindo-se mais um remate cheio de destreza mágica para a baliza.
Para melhorar, João Neves não se ficou por aí e ainda marcou mais um golo, o sexto e último do PSG (o jogo terminaria 6-3), aos 78’, um remate extraordinário de fora da área, forte e colocado.
Os três golos marcados ao Toulouse, de uma só vez, igualaram o registo do médio português na última época e, igualmente relevante, colocaram o jovem algarvio que gosta de jogar a morder a língua numa estrita lista, onde faz companhia, por exemplo, a Lionel Messi e Haaland e onde nunca antes um português tinha entrado: João Neves tornou-se no 19.º nota 10 atribuído pelo “L’Equipe”.
“Muito para lá das suas atuações brilhantes, o jogador português do PSG brilhou com a sua energia no coração do jogo, pressionando alto os jogadores do Toulouse”, escreveu o diário francês, pouco mãos largas na hora de dar notas máximas a jogadores.
João Neves entra num grupo onde está o colega Désiré Doué, o último a consegui-lo, na final da Liga dos Campeões, Donovan Léon, Ademola Lookman, Erling Haaland (2x), Dominik Livakovic, Alban Lafont, Kylian Mbappé, Serge Gnabry, Lucas Moura, Dusan Tadic, Neymar, Carlos Eduardo, Robert Lewandowski, Lionel Messi (2x), Lars Windfeld, Oleg Salenko, Franck Sauzée e Bruno Martini.