
Passadas algumas horas dum desastre anunciado, se bem que talvez nunca imaginado desta forma, o futuro parece pavoroso. Constatando finalmente a imensa fragilidade do seu presente, ao paciente Rúben Amorim é diagnosticado o impensável – acreditava o português que o seu carisma, à falta de eventuais argumentos técnico-táticos, lhe garantisse a estabilidade emocional, sua e do plantel, para não se afundarem os resultados numa fase de transição.
Como um paciente que só se apercebe da doença quando o doutor lhe explica o que tem, a somatização pós-diagnóstico de Rúben fê-lo cair na realidade: pela primeira vez na carreira, a equipa não está com ele.
Um conjunto como o do Manchester United, reforçado com uma linha ofensiva de 215 milhões, viu-se manietado por um conjunto que luta pelo pódio da quarta divisão – e que, aparentemente, rodou quatro jogadores em relação ao empate com o Accrington Stanley, tendo inclusivamente deixado Jaze Kabia, melhor marcador, no banco de suplentes.
Quando Rúben diz que «os jogadores disseram muito alto aquilo que queriam», sem sentir necessidade de explicar o significado, parece óbvio a encruzilhada onde o próprio se sente perdido, aparentemente levando-o a medidas extremas como um ultimato. O jogo com o Burnley será o tira-teimas da sua relação com o grupo e do pouco ascendente motivacional que conseguiu ou conseguirá criar a partir daqui.
A imagem de Rúben Amorim, a navegar nos seus próprios raciocínios enquanto recorre à prancheta para fazer frente a um adversário daquela valia, surge como um marco simbólico da sua carreira em Inglaterra. As sangrentas redes sociais não perdoaram o cenário caricato do momento.

Os memes sobre Rúben Amorim sucedem-se, as piadas acumulam-se e a fraqueza momentânea do técnico é aproveitada para sustentar um interminável rol de críticas, focadas sobretudo na sua já marcante inflexibilidade tática – a para nós tão justificada teimosia do ‘3-4-3 ou nada’ é para o comum adepto inglês um traço que denuncia a loucura irracional.
A imagem motivou até comparações com o episódio em que se Steve McClaren, com uma comicamente grande sombrinha azul e vermelha, tentava comandar uma Inglaterra à deriva perante a Croácia de Kranjcar e Modric, que em 2008 venceu em Wembley e obrigou os Três Leões a ver o Europeu a partir de casa.
Demitido seria, naturalmente, poucas semanas depois. O momento ‘Wally in the Brolly’ de Rúben Amorim, linhas traçadas da inevitável comparação, chegou.
A frustração na flash interview pode significar duas coisas: uma sincera desistência do treinador português, que se vê num beco sem saída, ou o derradeiro mind game de Rúben Amorim para salvar o pouco que resta, obrigando o plantel a uma resposta imediata contra o Burnley, este sábado.
Na primeira época a valer em Inglaterra, com dedo seu no planeamento, pode-se agarrar Rúben à final europeia que já conseguiu nos entretantos; e folheando certos livros e certas memórias, há pontos na História que poderão dar alento para o que aí vem: que nem tudo foi em vão e que, presumivelmente, os mais sensatos adeptos do United perceberão que voltar à rotina de despedimento do técnico não culminará em nada de bom; Joga-se também o futuro do clube, e um castelo em ruínas não se reerguerá com tábuas e pregos.
1995-96. Sir Alex Ferguson tinha tido uma época atípica, sem qualquer título, mesmo depois de já ter sido bicampeão inglês ou vencedor da Taça das Taças.

O United sofrera, em 94-95, uma imensa desilusão: o título fora perdido na última jornada para o… Blackburn, quando, na derradeira hora, os Red Devils não aproveitaram um deslize dos Rovers diante do Liverpool, não indo além dum empate frente ao West Ham; na Taça, uma derrota na final frente ao Everton ditara a dupla desilusão.
O irrequieto soviético Kanchelskis, melhor marcador da equipa, sairia nesse Verão. A estrela Cantona tinha sido protagonista do famoso episódio em Selhurst Park, nocauteando um adepto. O castigo era longo.
O planeamento não se ditou por um agressivo ataque ao mercado para recuperar imediatamente o domínio da Premier; Sir Alex decidira que chegara a hora dos seus Fledglings – Giggs já estava cimentado no onze e chegava a vez de Beckham, Scholes, os irmãos Neville ou Nicky Butt, a também denominada Class of ’92, assumirem preponderância.
A revolução juvenil não deu logo resultados, que a visita ao Villa Park na primeira jornada resultou em números alarmantes (3-1), o que levou ao icónico momento de Alan Hansen no rescaldo do jogo: «you can’t win anything with kids».
As coisas na Premier compuseram-se. Até final de Setembro, só vitórias. Mas chegada a altura de mudança de chip, a desconfiança voltaria: na mesma 2.ª ronda da Taça de Liga, calhou do York City, à altura na terceira divisão, visitar Old Trafford. Com apenas duas vitórias nas primeiras dez jornadas, o York era penúltimo (acabaria em… 20.º, primeiro acima da linha de água).
O United, para manter o momentum, entrava com Irwin, Beckham, Giggs, McClair ou Lee Sharpe – o onze era bem-composto e presumia serviços mínimos. Só que o impensável aconteceu e, no meio dum turbilhão de peripécias, com direito a frangos e expulsão, o York aplicava um inigualável 0-3 no Teatro dos Sonhos. A última derrota para Sir Alex em Old Trafford tinha sido há… quatro anos. Um escândalo sem precedentes.

Felizmente, pensou-se, havia uma segunda mão para emendar o acidente de percurso. Uns dias depois, o United ia ao jogo de volta pronto para matar: e à passagem do quarto de hora, já havia 0-2.
Por uma razão ou por outra, não houve continuidade dada ao ímpeto e a coisa acabou num caricato 1-3, com passagem do York à próxima fase, num clima de festa com a natural invasão de campo, tal e qual nesta quarta-feira – o gigante United, já com a base vencedora da Liga dos Campeões quatro anos depois, era eliminado a duas mãos por um clube da Division One, ou terceira divisão.
Uma tragédia para Sir Alex, e talvez só ele conseguisse aguentar tamanha humilhação. O que se seguiu é uma das grandes provas do seu génio: nos meses seguintes, a coisa foi-se compondo: os meninos foram ganhando calo, a estrela Cantona regressou do castigo, o onze foi-se fortalecendo e uma corrida épica frente a um grande Newcastle, o de Kevin Keegan com Asprilla e Ginola, culminou em novo título inglês, com direito a regresso a Wembley para levantar também a Taça.
Se é possível apoiar-se na História, tem Rúben de encontrar um caminho seu, restando-lhe perceber se insiste na sua ideia ou a reformula, adaptando-se à envolvência e dando mão à palmatória da crítica – a estatística suporta as teses dos implacáveis pundits e remete-o às profundezas dos registos: basta atentar que Jimmy Murphy, o lendário adjunto de Matt Busby, quando assumiu de forma interina depois do desastre de Munique, registou 22,7% de vitórias – Amorim, em termos de Premier, vai nos 24%.
Há muito a melhorar, mas existe em Rúben Amorim génio suficiente para dar a volta por cima.