
Parece apenas mais um “conteúdo”, como se diz agora, de mais um vlogger, munido somente de uma câmara e de alguma lata. Estamos em julho de 2022 e Vitya Kravchenko anda pelas ensolaradas ruas de Barcelona, cheias das cores pastel próprias do verão, onde se encontra com dois dos melhores tenistas russos, Andrey Rublev e Daria Kasatkina.
Visitam lojas de roupa em segunda mão e perdem-se entre o merchandising do Barcelona na loja oficial do clube. Filmam-se em montanhas-russas de um parque de diversões. Mas o que inicialmente soa apenas a vídeo anódino e ligeiro sobre a rotina dos dois atletas, que treinavam então na academia CMC, nos arredores da cidade catalã, torna-se num denso e até pesado relato daquele tempo, com revelações, desilusões e críticas.
A invasão da Ucrânia por parte da Rússia aconteceu há poucos meses. Na cara dos atletas e do anfitrião do conteúdo há um cansaço e um desencanto evidente. De um lado e do outro da barricada, vidas mudaram. E é possível que o conteúdo desse vídeo tenha tido um efeito borboleta para uma das notícias tenísticas desta semana: Daria Kasatkina é agora uma cidadã com autorização de permanência na Austrália e é por esse país que passará a competir já a partir do torneio de Charleston, nos Estados Unidos, onde se estreia esta quarta-feira.
“Não tive muita escolha”, confessou Kasatkina já no torneio norte-americano, na primeira aparição pública desde que foi conhecida a troca de nacionalidade, durante o fim de semana. Os motivos quase não carecem de explicação, porque estão todos nesse vídeo de 2022. Nele, contrastando com a leveza do verão da Catalunha, uma nervosa Kasatkina fala pela primeira vez da sua homossexualidade, assume que tem uma namorada. E nele critica também a então recente invasão da Rússia à Ucrânia, uma das únicas atletas russas com coragem para o fazer.
“Para alguém como eu, abertamente homossexual, querendo ser eu própria, precisava de dar este passo. E dei.” No site do WTA, Kasatkina já surge com a bandeirinha da Austrália ao lado, depois de mais de dois anos apátrida no ténis, já que os atletas russos e bielorrussos têm de competir como neutrais. A número 12 do ranking tornou-se também, automaticamente, na número 1 australiana.
A confissão e o apoio à Ucrânia
Desde a publicação do vídeo de Vitya Kravchenko, Daria não mais voltou à Rússia, dividindo-se entre Espanha e o Dubai. Nada que em 2022 não fosse já uma hipótese. Quando Kravchenko lhe pergunta se pensa voltar a Tolyatti, cidade de onde ambos são naturais, Kasatkina é taxativa: “Não tinha grande vontade antes, agora nenhuma.”
O “agora” está intimamente ligado à guerra na Ucrânia. Durante o vídeo, tanto Daria como Rublev falam de como o conflito está a afetar o ténis russo, travando oportunidades aos mais jovens, sem torneios internacionais para competirem ou até material para treinarem. Mas a tenista vai mais longe. No final do episódio, num momento confessional, diz que o seu maior desejo é que “a guerra acabe” e coloca-se no lugar dos ucranianos: “Não consigo imaginar, é um pesadelo.” Mostra frustração por pouco conseguir fazer perante algo que é muito maior do que ela. E à pergunta “tens medo de nunca mais poderes voltar à Rússia depois do que disseste?”, Daria responde: “Sim, tenho de pensar nessa possibilidade.” E desaba a chorar.
Antes, no mesmo vídeo, Kasatkina havia falado pela primeira vez de forma aberta da sua homossexualidade e da namorada, também atleta russa, a patinadora no gelo Natalia Zabiiako. “Se fosse uma escolha, ninguém escolheria ser gay. Porque é que havias de querer dificultar a tua vida, principalmente na Rússia?”, questiona. No seu país de origem o movimento LGBT foi considerado uma organização extremista e terrorista em 2023.
Questionada sobre quando é que será OK ver duas raparigas de mão dada na rua na Rússia, Daria responde simplesmente: “Nunca.” Mas, para ela, “viver no armário é impossível”.
E é por isso que a mudança de nacionalidade, que curiosamente Kasatkina já profetizava nesse vídeo de 2022, se tornou uma necessidade para a tenista russa. “Obviamente, há partes desta decisão que não foram fáceis”, escreveu num texto publicado no Instagram. “Terei sempre respeito e serei grata às minhas raízes, mas estou entusiasmada por começar este novo capítulo na minha vida e na minha carreira”, frisa ainda, revelando que deverá mudar-se para Melbourne.