
“Promover uma prática mais segura, regulamentada e sustentada da modalidade.” É assim que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) defende a criação do projeto “Filiação por um dia”, que consiste no pagamento de uma licença, por parte dos atletas não-federados com mais 18 de anos, para ter acesso a provas organizadas de corrida.
A medida prevê que, para participar em provas com preço de inscrição superior a cinco euros, o atleta tenha de apresentar uma licença. O preço da licença varia, consoante a modalidade de pagamento escolhida:
- Licença anual, que custa 31 euros e fica válida para toda a época;
- Licença de três euros, que o atleta terá de pagar individualmente sempre que quiser participar numa prova.
A medida abrange todas as provas organizadas de corrida reconhecidas pela FPA, como a Meia-Maratona de Lisboa e do Porto. A Federação afirma que o valor da licença cobre o valor do seguro desportivo, que tem de ser pago em cada prova. No entanto, não é garantido que o pagamento da licença anual signifique uma redução do preço de inscrição nas provas. A Federação refere que as organizações “que assim o entendam” poderão optar por “baixar o valor das inscrições” mediante apresentação da licença.
A polémica decisão da FPA já motivou a criação de uma petição, com mais de dez mil assinaturas, que pede “a revogação da licença obrigatória nas competições de atletismo”. Alega que “a obrigatoriedade da referida licença representa um encargo financeiro que poderá afastar praticantes [amadores] das provas”.
Vai ser preciso pagar para correr?
Não necessariamente. A licença não se aplica a qualquer tipo de prática individual de corrida. É falso dizer que será preciso pagar para correr. Qualquer pessoa que queira fazer uma corrida por conta própria ou com acompanhantes, sem estar em nenhuma prova organizada, continua sem ter de pagar qualquer valor para o fazer. As corridas em provas gratuitas ou de valor inferior a cinco euros também não vão precisar de licença.
Por que razão é que a FPA decidiu tomar esta medida? No comunicado, a mesma refere que o objetivo é implementar “medidas estruturais para o desenvolvimento da modalidade”, uma vez que a federação “apresentou saldo negativo nos últimos quatro anos”. Pretende-se, portanto, que esta licença seja uma nova fonte de rendimento, aproveitando o recente aumento do interesse pela atividade.
Praticantes manifestam-se sobre a medida
Cada vez há mais pessoas a correr - uma evidência disso mesmo é o facto de a Meia Maratona de Lisboa de 2025 ter registado um número recorde de inscritos, com mais de 40 mil participantes. Entre eles estava Guilherme Anastácio, de 25 anos e residente em Cascais, que começou a correr de forma mais regular há cerca de seis meses, tendo participado nesta e noutras provas organizadas. Assume que a criação da licença o vai “deixar a pensar” em futuras participações.
“As corridas por si só não são caras, tendo em conta aquilo a que os participantes têm direito”, diz, referindo-se aos bens que cada atleta recebe ao entrar nestas provas. Geralmente, é uma dorsal com o número de participante, uma camisola e um ‘kit’ com comida, água e outros brindes dos patrocinadores. “Se a isso, juntarmos o valor da licença, torna-se num gasto maior.” O preço por corrida oscila entre os €10 e €15, podendo aumentar à medida que a data do evento se aproxima.
Tendo em conta que a medida deve entrar em vigor na próxima época, ou seja algures a partir de outubro de 2025, Guilherme dá o seguinte exemplo: “se uma pessoa quiser entrar em três ou quatro corridas no primeiro trimestre, mais a licença… são quase €100”. Neste valor, não estão incluídos, por exemplo, os ténis de corrida, também necessários para a prática da atividade, e de outro material desportivo.
Andreia Jesus tem 26 anos e é federada na Escola de Atletismo da Moita. Pratica a modalidade há mais de dez anos, participando regularmente em provas. Ao ouvir falar da medida, admite que ficou com uma “opinião dividida”. Realça que a licença só será necessária para corridas cuja inscrição exceda os cinco euros. “Aquelas corridas amadoras, como as de freguesias, já são gratuitas, portanto não é preciso essa licença”. Recorda também os recentes bons resultados de atletas portugueses em competições profissionais, e diz que, “se isto fizer com que mais pessoas se inscrevam na federação, e que haja melhores condições para clubes e atletas, especialmente os de alta competição", então considera a medida como algo positivo.
Admite, porém, que a medida pode levar a uma redução de participantes das provas, mas que não deverá dissuadir as pessoas da atividade em si. “As pessoas vão continuar a correr. Correr é grátis. Podem ir à rua e correr, podem ir a essas provas grátis e correr, mas o espírito dessas provas maiores é diferente. Acho que, para pessoas com mais dificuldades, é mau, porque mesmo que haja uma redução do preço por já terem pago a licença, vão acabar sempre por pagar mais. É esperar para ver”.
O Expresso entrou em contacto com a Federação Portuguesa de Atletismo para obter esclarecimentos quanto à data de início da medida, aos preços da licença e ao impacto que a decisão pode ter no número de participantes, mas à data de publicação deste artigo ainda não obteve resposta.