O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou hoje que a cultura seja ainda um parente pobre aos olhos da sociedade portuguesa, prevendo que não vá ser um tema prioritário na campanha eleitoral.

"[A cultura] ainda é um parente pobre aos olhos de uma parte importante da sociedade portuguesa. E como, normalmente, os políticos refletem o que é dominante na sociedade portuguesa, significa que depois isso tem um custo em termos de poder político nacional", afirmou o chefe do Estado, em declarações à agência Lusa.

O Presidente falava após a visita que realizou à Casa-Museu de Vilar, em Lousada, no distrito do Porto, um espaço museológico dedicado ao cinema de animação que reúne centenas de objetos da história do cinema.

Durante a visita, o seu proprietário, o cineasta e produtor Abi Feijó, lamentou que, até à data, o museu com mais de uma década de existência nunca tenha sido visitado por um membro do Governo.

Sobre isso, Marcelo Rebelo de Sousa disse que aquela situação pode ser explicada pelo facto de o cinema de animação em Portugal não ter o reconhecimento que devia, incluindo dos governantes.

"Esta área é muito específica e demorou a ser compreendida em termos internos e em termos de sucesso internacional", anotou.

Questionado sobre se a aparente indiferença dos sucessivos governos em relação àquele projeto cultural privado não terá a ver com o facto de se localizar fora dos grandes centros, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que também poderá ser uma razão.

"Há uma série de casas museus que estão espalhadas pelo país e que são uma realidade conhecida nos últimos tempos, o que é uma mudança radical da ideia da concentração nos grandes centros", referiu, indicando que essa "realidade nova e essa mudança demorou a ser absorvida politicamente".

Sobre se defende que o próximo Governo possa olhar com outra atenção para este tipo de projetos, referiu fazer sentido que "qualquer que seja o Governo agora, daqui a cinco anos, daqui a 10 anos, daqui a 20 anos descubra esta realidade".

"Quem está a descobrir [esta realidade] são as autarquias locais, que estão a funcionar como mecenas ou como uma realidade de enquadramento e apoio daquilo que é novo na nossa cultura, em muitos casos sendo de raízes muito antigas", sinalizou.

Já sobre se a cultura devia ter mais atenção no debate político durante a campanha eleitoral para as legislativas, referiu que, do que tem visto das sondagens, "as prioridades cá dentro como lá fora andam sempre à volta da realidade internacional, as medidas económicas, a situação da guerra, a situação da vida económica das pessoas, nas várias vertentes, ou então problemas muito específicos sociais".

Para o Presidente, essa circunstância "atira para posições ditas menos prioritárias as realidades como a cultura e, em muitos casos, há muitos anos em Portugal, a educação".

Sobre o museu que hoje conheceu, numa visita conduzida por Abi Feijó, considerou ser "uma maravilha do ponto de vista ambiental", destacando também "a animação e a criatividade" de um espaço dedicado ao cinema de animação, um setor, destacou, "tão importante no mundo e tantas vezes esquecido ou não compreendido em Portugal".

Portugal obteve a primeira nomeação para os Óscares da Academia de Hollywood em 2023, com uma curta-metragem de animação, "Ice Merchants", de João Gonzalez.