
A incerteza no ambiente macrofinanceiro e de crédito é atualmente “excecionalmente elevada”, num mundo que está a ser remodelado por mudanças na geopolítica, na cooperação internacional, na política comercial global, na regulamentação financeira e no papel dos criptoativos, alerta o vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), no Fórum dos Diretores Executivos da Federação Internacional de Contabilistas, que está a decorrer em Amsterdão, Países Baixos, nesta quinta-feira. Simultaneamente, a escala do investimento na defesa previsto na UE “não tem precedentes e acrescenta outra camada significativa de incerteza ao ambiente atual”, acrescenta Luis de Guindos.
Neste ambiente, a incerteza quanto à política económica na zona euro é atualmente mais de três vezes superior à média histórica. Do mesmo modo, um índice de incerteza da política comercial é mais de oito vezes superior à média histórica. “Estes níveis são muito superiores aos registados durante a pandemia”, sublinha De Guindos.
No meio de toda esta incerteza, o Conselho do BCE decidiu baixar as taxas de juro em mais 25 pontos base em março. A taxa da facilidade permanente de depósito situa-se atualmente em 2,5%, 150 pontos de base abaixo do seu pico recente. O processo de desinflação “está bem encaminhado”, com a inflação a evoluir, em termos gerais, como previsto. A inflação global voltou a diminuir de 2,3% em fevereiro para 2,2% em março.
No entanto, a incerteza em torno das perspetivas de inflação “continua a ser elevada, principalmente devido à crescente fricção no comércio mundial”, prossegue o supervisor. “Uma escalada das tensões comerciais poderia levar à depreciação do euro e ao aumento dos custos de importação, enquanto as despesas muito necessárias com a defesa e as infraestruturas poderiam aumentar a inflação através da procura agregada. As tensões geopolíticas poderão também conduzir a uma inflação mais elevada devido a perturbações no comércio, ao aumento dos preços das matérias-primas e dos custos da energia. Simultaneamente, uma menor procura de exportações da área do euro e um menor crescimento resultante do impacto de direitos aduaneiros mais elevados ou de tensões geopolíticas podem constituir uma ameaça para a economia, deprimir a procura e fazer baixar a inflação”, analisa.
Bancos “em boa forma”
Apesar de na atual conjuntura económica, se observarem “vulnerabilidades acentuadas na estabilidade financeira”, os bancos “continuem em boa forma, com indicadores sólidos de solvência e liquidez que estão muito acima dos mínimos regulamentares”, refere Luis de Guindos.
Mas aponta fragilidades em vários domínios que podem pôr em risco a estabilidade financeira da zona euro. Nomeadamente, as valorizações elevadas e os riscos concentrados tornam os mercados financeiros suscetíveis de correções adversas. “Os intermediários financeiros não bancários mantiveram-se resistentes aos recentes episódios de volatilidade do mercado, mas continuam a estar fortemente expostos a ativos de risco. Choques de mercado mais amplos podem causar saídas súbitas de fundos de investimento ou desencadear chamadas de margem sobre exposições a derivados, perturbando os mercados e conduzindo a correções abruptas dos preços”, alerta.