"Claramente que é um novo paradigma. É um projeto-piloto que vamos avaliar em três meses, mas já numa área muito grande e esse é o caminho. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso", adiantou à agência Lusa o coordenador da Comissão Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente.

Este novo modelo tem em conta que o número de doentes pouco urgentes e não urgentes oscila entre 40% e os 50% dos atendidos nas urgências, mas também que o atual número de especialistas é insuficiente para manter abertas todas as urgências de pediatria das Unidades Locais de Saúde (ULS).

Segundo Caldas Afonso, os Centros de Atendimento Clínico Pediátrico (CAC-P) destinam-se a doentes com triagem "verde" (pouco urgente) e "azul" (não urgente), com o do Porto a entrar em funcionamento no sábado no Hospital da Prelada, enquanto em Lisboa ainda decorre o concurso para a sua abertura.

O CAC-P do Porto vai abranger os utentes das ULS de São João, Santo António, de Matosinhos e Gaia-Espinho, enquanto o de Lisboa será direcionado para os utentes das ULS de Santa Maria, São José e de Lisboa Ocidental.

Estes novos centros pediátricos terão equipas dedicadas de médicos, enfermeiros e auxiliares, com a presença mínima obrigatória de um pediatra, responsável pela coordenação, funcionando entre as 08:00 e as 23:00 todos os dias da semana e com a disponibilização de exames complementares de diagnóstico.

"Vai haver uma oferta até às 23:00 de altíssima qualidade em que as pessoas têm uma resposta de proximidade nas áreas metropolitanas para as situações mais básicas e mais simples e que não têm de ir a uma urgência hospitalar", salientou Caldas Afonso.

O projeto-piloto de reorganização envolve os serviços de urgência pediátrica da região de Lisboa e Vale do Tejo, de Leiria e da Área Metropolitana do Porto, assim como várias outras ULS que decidiram aderir à iniciativa, num total de cerca de 20 hospitais do país.

Na prática, o acesso à urgência referenciada passa a ser possível através de uma pré-triagem telefónica da linha SNS Criança e Adolescentes (uma derivação do SNS24), assim como para casos encaminhados pelo INEM, pelos centros de saúde ou por outra instituição de saúde, pública, privada ou social com informação assinada por médico.

Para quem aceder à urgência sem ter uma referenciação prévia, os hospitais devem assegurar um meio de contacto com a linha SNS 24, através do serviço administrativo ou de um telefone instalado no local.

Se o utente recusar ou, se por outra razão, não for possível encaminhamento através do SNS, deve ser assegurada a sua inscrição no serviço de urgência e posterior triagem, de acordo com o definido nesta reorganização, que prevê várias situações em que é obrigatória uma avaliação do doente em serviço de urgência de pediatria.

Todas as crianças com menos de seis meses serão obrigatoriamente avaliadas no serviço de urgência, assim como utentes acamados ou em cadeira de rodas, sem possibilidade de mobilização por meios próprios, vítimas de trauma, situações cardiovasculares agudas, casos de agressão e de quedas, com traumatismo crânio-encefálico e convulsões, entre muitas outras.

Esta reorganização prevê também a disponibilização de consultas aberta nos cuidados de saúde primários para doentes triados como pouco urgentes (verdes) e uma observação diferida mediante agendamento de consulta para os casos não urgentes (azuis).

O novo modelo de funcionamento "é do interesse dos doentes e é do interesse dos profissionais" de saúde, salientou Caldas Afonso, adiantando que se trata de uma solução para responder, com qualidade e previsibilidade, à falta de especialistas no Serviço Nacional de Saúde, que levam cerca de 15 anos a formar.

"As pessoas já estão a perceber que é melhor para elas, porque não vão estar a perder tempo a ir para um sítio com horas de espera e vão ter uma resposta de acordo com a sua situação clínica num ambiente seguro e com qualidade de instalações e de atendimento", considerou o especialista.

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