Caminho pela Serra da Lousã. A paisagem é desoladora: quilómetros de floresta ardida, pés a afundar-se na cinza, animais mortos, pejados de varejeiras, o silêncio interrompido apenas pelo estalar de troncos fumegantes. Parece outro planeta. Mas é precisamente aqui que há anos trabalho e invisto num projeto de futuro com a minha família.

ASilveira Tech nasceu com uma ambição dupla: reconstruir três aldeias abandonadas há meio século e regenerar a floresta em redor. O objetivo é criar um empreendimento de turismo regenerativo, com capacidade para acolher mais de 200 pessoas em estadias prolongadas. Procuramos atrair sobretudo empreendedores de áreas tecnológicas, que aqui queiram trabalhar nos seus projetos, por períodos de até nove meses. Gente que venha criar valor e trazer vida à Serra. E queira reaprender a lidar com a natureza.

O projeto foi desenhado pelo arquiteto japonêsKengo Kuma, aclamado pela arte com que integra os seus projetos na natureza, e abrange 230 hectares de regeneração ambiental. É um território imenso, agora arrasado pelo fogo. Mas não desistimos.

Foi a partir da Silveira que lançámos um movimento contra os cortes rasos na Serra da Lousã, que reuniu uma petição com 20 mil assinaturas,forçou a discussão do tema na Assembleia da República antes da época dos fogos e motivou a apresentação de várias iniciativas legislativas.

Esse debate será retomado em setembro e dará aos nossos deputados uma nova oportunidade para garantir um conjunto de decisões simples, concretas e com impacto real. Porque é disso que precisamos: uma estratégia de futuro, mas que comece já.

A Silveira não é o nosso primeiro projeto na Serra. A menos de dois quilómetros daqui está aCerdeira – Home for Creativity, uma aldeia de xisto recuperada ao longo de três décadas, onde funciona, todo o ano, uma escola de artes reconhecida entre as melhores da Europa. Foi distinguida com oPrémio Nacional de Turismo 2021 e com oPrémio de Sustentabilidade 2024, atribuído pelo jornal onde vos escrevo.

Também a Cerdeira esteve cercada pelo fogo. Mas também ela resistiu. Resistiu porque, ao longo de 30 anos, os seus novos habitantes plantaram e cuidaram dos carvalhos e castanheiros em redor. A diversidade protegeu. A monocultura ardeu. Eis a lição que a serra nos deixa, escrita a fogo: só a diversidade gera resiliência.

Se olharmos fotografias antigas da Serra da Lousã, veremos um mosaico distinto: pastagens, campos agrícolas, manchas de carvalhos e castanheiros. Hoje, restam monoculturas inflamáveis e a invasão de acácias. E, no entanto, até no meio do desastre tivemos provas no terreno: os carvalhos e os castanheiros adultos travaram as chamas em alguns locais, como é o exemplo da Cerdeira e do carvalhal da Silveira. A diversidade protege, a uniformidade arde.

Hoje discute-se um pacto nacional para os próximos 25 anos. Nos últimos 25,o país perdeu mais de metade da sua floresta para os fogos, as desmatações e os cortes rasos de árvores. Vamos tarde, mas temos de ir.

Para nós, na Lousã, esse pacto vigora há três décadas. Um pacto pela regeneração da floresta e a recuperação da sua diversidade original. Mas um pacto, também, pela economia do interior, que possa gerar valor e atrair gente. Porque sem gente fica o abandono e é no abandono que tudo arde.

Eu próprio, sem raízes familiares nesta serra (os meus avós eram da Serra da Estrela), adotei-a como minha. É aqui que eu e toda a minha família investimos, criámos projetos e transformámos o abandono em vida. Porque o interior não é apenas memória: é futuro. Mas para isso é preciso coragem política.

A recuperação que se impõe não se faz com discursos ou relatórios. Faz-se no terreno. E no terreno, precisamos de agir já. Precisamos de dezenas de toneladas de palha para travar a erosão e impedir que cinzas e terras escorram para os ribeiros e provoquem nova calamidade; precisamos de dezenas de toneladas de sementes de pasto para estabilizar e fixar o solo; precisamos de sistemas de retenção de água e de contenção de encostas. Tudo isto, já.

O desafio não é eliminar o fogo, mas aprender a conviver com ele. Precisamos de diversificar novamente o coberto das serras, apostar em pastagens e folhosas, reintroduzir o mosaico agrícola e natural que torna o território menos vulnerável. E sim, criar valor, criar economia, criar condições para que outros, como nós, criem família aqui. Não é nostalgia, é estratégia de futuro.

Temo que a burocracia do Estado, que nos exige cumprir à risca regras pensadas para ecossistemas intactos, funcione aqui como um colete de forças: estamos numa área protegida, mas o seu ecossistema foi completamente destruído. E a natureza não espera pelos despachos.

No próximo dia 13 de setembro vamos abrir as portas da Silveira para umOpen Day. Queremos partilhar o projeto, mostrar o trabalho feito, talvez inspirar outros a seguirem este caminho connosco. Queremos reafirmar, perante o país e a comunidade, a nossa determinação em prosseguir. Mas queremos também exigir ao poder político um compromisso efetivo, prático e imediato.

Este é o nosso pacto e não desistimos. Falta apenas a vossa assinatura.

José Serra

Co-founder da Silveira Tech Generation Village e da Cerdeira — Home for Creativity. Autor do livro “Aprender a Aprender com a Natureza”.