É uma visita francesa, mas sempre com os EUA como pano de fundo. O Presidente francês, Emmanuel Macron, passou o seu primeiro dia em Portugal numa agenda intensa em que foi ouvindo apelos à unidade e fortalecimento da Europa e elogios vários ao seu encontro com o Presidente norte-americano assim como críticas ao mesmo Trump. A maior delas do Presidente português que, ao jantar no Palácio da Ajuda, disparou contra o chefe de Estado dos EUA, que acusou de favorecer Putin e "corroer a NATO".

“Os Estados Unidos da América parecem, neste momento, ter decidido favorecer a Federação Russa e seus aliados, na situação existente na Ucrânia, em detrimento da UE”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que já tinha lançado várias críticas ao president norte-americano ao longo da semana: primeiro questionando se aquele país continua a ser um aliado, depois a falar de uma rampa deslizante para a ditadura.

Salientando que “é fácil de ver que, dia após dia, neste último mês, se foi corroendo a NATO” com gestos como os anúncios de intenções de anexação do Canadá ou de posse da Gronelândia, Marcelo avisou que "exigir mais empenho aos aliados como a UE só pode ter como fundamento moral o exigir que quem solicita tal reforço não enfraqueça, não deixe cair os aliados”, que é o que considera que Trump tem feito "dando a sensação de que pode converter os antigos adversários ou inimigos comuns em parceiros, aliados ou amigos desejados para o presente e para o futuro”.

A administração Trump tem "base eleitoral interna para quererem mudar radicalmente a posição do anterior poder político”, mas Marcelo considera que "não têm necessariamente legitimidade jurídica internacional para atacar a soberania de parceiros, aliados e amigos, para intervir na sua integridade territorial, para preferirem fazer a chamada paz com a Federação Russa e seus aliados, sem a UE, e até para reduzirem o papel da Ucrânia a uma sujeição máxima e soberania mínima”. E reforçou: "Verdadeira paz não é rendição mais ou menos disfarçada.

Já o Presidente francês elogiou as palavras de Marcelo, mas optou por não nomear as crises internacionais e centrar-se na defesa da Europa, que “está ameaçada por todos os lados” pelo que é necessário que os europeus garantam que a sua defesa se torne “um dever, uma exigência e uma oportunidade”.

“Sei que posso contar consigo, senhor Presidente e senhor primeiro-ministro [Luís Montenegro, também presente no jantar], para agirmos juntos para a Europa e fazermos tudo o que for possível. E, com António Costa na presidência do Conselho Europeu, temos um aliado, um amigo precioso para alcançar os nossos objetivos”, referiu.

MIGUEL A. LOPES

O dia dos Presidentes começou à chuva, no fim da manhã com cerimónia protocolares junto ao Palácio de Belém e nos Jerónimos, com foto oficial e condecorações a Emmanuel e a Brigitte Macron. De Belém, Macron foi para São Bento, onde se encontrou com o primeiro-ministro. Mais fotos oficiais e um almoço que contou também com a presença de outros elementos do Governo como o ministro dos Negócios Estrangeiros e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus.

Mais de uma hora depois das 15h previstas, o Presidente francês desceu para a Assembleia da República. Depois de uma receção com guarda de honra, o chefe de Estado francês passou pelos Passos Perdidos (onde saudou os presentes com um "enchanté" e os jornalistas com um piscar de olho), antes de seguir para a cerimónia solene de boas-vindas no Salão Nobre, com alguns líderes de bancadas e comissões parlamentares para apresentar cumprimentos de cortesia.

Foi, então, que se ouviu Macron pela primeira vez. "Os europeus, hoje, devem estar convencidos de uma coisa: que é preciso mais do que nunca estar unidos e ser fortes", disse o chefe de Estado francês para quem a ligação entre Portugal e a França é um contributo importante para essa Europa mais forte, mostrando-se "muito feliz" pelo tratado de amizade que tinha assinado com o seu "amigo primeiro-ministro" português. "Devemos absolutamente fazer escolhas muito profundas para ter uma Europa que seja mais unida e mais forte em matéria tecnológica, industrial e em matéria de defesa", sublinhou, acrescentando que o tratado assinado com Portugal também honrará esse compromisso.



Elogios de Montenegro e Moedas


A chuva continuava a cair com força na capital portuguesa e a cerimónia seguinte - de passagem de testemunho da Conferência dos Oceanos de Portugal para França - teve de passar do veleiro Santa Maria Manuela, no Cais do Adamastor, Parque das Nações, para o Centro Cultural de Belém. E vieram, então, os elogios públicos de Montenegro a Macron, feitos em português, depois de uma breve saudação em francês.

“Quero nesta ocasião congratular o Presidente Emmanuel Macron pela sua postura e pelo trabalho que tem evidenciado e que, nas últimas semanas, tem estado muito notado para, precisamente no contexto internacional, dar passos positivos para que possamos ter um processo de paz na Ucrânia, com a Ucrânia e com a Europa”, disse o primeiro-ministro, salientando os desafios que os dois países e a Europa têm pela frente: "Os desafios que hoje temos diante de nós para assegurar mais paz, a proteção dos nossos valores mais relevantes, os valores da democracia, os valores do direito internacional, os valores da dignidade das pessoas, os valores da prosperidade, os valores da responsabilidade que todos temos de valorizar as vidas humanas e de valorizar o desenvolvimento em todos os cantos do mundo."

Seguiram-se, noutra ponta da cidade, o Beato, os elogios do presidente da Câmara de Lisboa. Apesar do tema da conversa entre Emmanuel Macron e Carlos Moedas ser a tecnologia, o presidente da Câmara de Lisboa fez um desvio para elogiar a prestação do presidente francês no encontro com Donald Trump. "A forma como interagiu com Donald Trump foi muito importante para a Europa. Trouxe-nos algum sossego, ficámos algo tranquilizados enquanto europeus", disse o autarca, que na hora e meia que esteve à espera aproveitou para lamentar que os mandatos autárquicos em Portugal sejam só de quatro anos.

A conversa terminou com o autarca a entregar a chave da cidade ao presidente francês que deixou um pedido final de "coragem". E dali seguiu para uma mudança de roupa antes do jantar com que terminou o dia, no Palácio da Ajuda.

Esta sexta-feira, a visita do Presidente francês continua no Porto, onde serão assinados vários acordos comerciais, culturais e de defesa. E onde vai decorrer um seminário económico.