
Quantas vezes já se sentiu a falar para o boneco e não se sente escutada ou escutado pelos outros?
Quantas vezes a realidade nos parece insuportável ou apenas demasiado aborrecida e só olhando para os bonecos é que isto ganha algum brilho e sainete?
Se é o seu caso, então tome atenção à série que acaba de estrear no canal 1 da RTP, FELP. Uma comédia sobre “diferença, identidade e empatia”. Esta palavra tão importante, mas também tão esvaziada. E que aqui ganha outro enchimento. E olhos de plástico…
A história promete risota e muitas daquelas expressões sem tradução, quando o absurdo acontece à nossa frente e decidimos parar tudo para não perder pitada.
Num país onde os bonecos de peluche vivem como cidadãos de segunda, uma comunidade farta de ser deixada na prateleira decide organizar-se.
Entre cafés de bairro, lavandarias suspeitas e militância com enchimento, nasce o FELP (Frente Espetacular pela Liberdade Peluda) um movimento que luta por direitos tão básicos como a representação política ou o acesso a máquinas de secar roupa com programa de "Delicados".
Neste mundo em que o principal crime é ser feito de pêlo, há lutas pelo poder, intriga peluda, tráfico de bonecos, e teorias da conspiração que ligam os Templários ao sucesso do Manzarra, e há quem sussurre o segredo de ter ido para a cama com o Camané.
Ao longo de 20 episódios, são apresentadas as inquietações deste grupo de bonecos que só queria ser tratado com respeito, mas acaba julgado em tribunal…
Qualquer semelhança destas criaturas da FELP, com muitas outras de carne e osso, não será pura coincidência. É a sociedade do ‘bonequismo’ a refletir os problemas da sociedade, e de tantas minorias, numa alegoria com humor, muita subversão e ternura.
Manuel Pureza é o realizador que dá vida a esta série, o mesmo da popular série “Pôr do Sol”. Ele sabe bem que o melhor humor é aquele que traça tangentes à realidade que vivemos.
Expondo os ridículos, as contradições e injustiças deste mundo, mas com a arma da gargalhada.
A cultura será sempre uma forma de ativismo?
Num momento em que se discutem as novas fronteiras do humor, que chegam às barras do tribunal, estarão os bonecos a salvo?
O melhor humor é aquele que nos faz rir com o que nos desconforta ou com os ridículos e absurdos que nos dividem?
E, já agora, numa série que coloca as minorias em forma de boneco, quem se ri de quem?
Todas estas questões são colocadas nesta primeira parte deste podcast.
Manel deixa claro que não é Manuel (assim com U) para ninguém. Os amigos ou o tratam por Manel, ou por Pureza.
Quem o conhece mal trata-o por Manuel e ele faz questão de corrigir, talvez pela grande necessidade que tem de não permitir grandes pejos ou defesas quando enceta conversa.
Manel Pureza nasceu em Coimbra, numa família de esquerda, apostada em dar valor aos sonhos de cada um.
Aos 18 anos veio para Lisboa atrás do sonho motivado por uma Oficina de Expressão Dramática, dada pela Professora Adelaide, que o iniciou no Artaud, no Meyerhold, no Grotowski, no Stanislavski, no Brecht.
Entusiasmado com tudo o que lia nessa altura, fez as provas para o Conservatório de cinema e conseguiu.
Mas as partir do primeiro trimestre percebeu que não era ali que ia aprender o que queria.
E assim, ao fim do primeiro trimestre, decidiu bater às portas das produtoras a pedir e oferecer trabalho.
Na primeira porta que bateu, que era na sua rua, a Fado Filmes, encontrou o cineasta Luís Galvão Teles. Falaram. Entenderam-se. E ele propôs-lhe o que mudaria tudo: ser seu assistente.
Assim, Manel fez uma curta como primeiro assistente (que Manel recorda como desastrosa mas que lhe ensinou muito) preparou-lhe uma longa, e logo a então directora de produção, Cristina Soares, achou que o seu nome era bom para propor a uma outra pessoa: o José Fonseca e Costa.
E mais uma vez, a vida mudou. O José Fonseca e Costa foi o seu mestre durante oito anos.
Manel conheceu a Lisboa dele, conheceu os filmes que o inspiravam, teve na mão a cópia d’A Noite do Antonioni, assinada pelo próprio com a dedicatória endereçada ao Zé...e disse-me que aprendeu muito.
“Vi um realizador a pensar. Fui desafiado a pensar com ele, e por ele. A decidir.”, recordou Manel.
E, já nessa altura, ao mesmo tempo, Manel Pureza realizava as suas curtas e videoclips para bandas. Quase sempre acompanhado pelos seus amigos.
Das curtas e videoclips veio o convite do Sérgio Graciano, para integrar a equipa de realização da Lua Vermelha quando completou 25 anos. O peso da responsabilidade era muito mais leve do que o peso da excitação, da vontade de acertar e fazer mais do que era pedido.
Seguiram-se anos de ficção para televisão, ou seja, novelas. Em todas, a noção clara de que estava a ir ao ginásio. Treinar a capacidade de gerir equipas. De gerir expectativas, de tentar melhorar o impossível, de fazer diferente, de inovar, de desafiar os outros e as outras, e a si próprio. Foram 10 anos de novelas e o último ano foi cumprido já sem qualquer ânimo.
Manel conta que as duas últimas produções que realizou saíram de uma zona de tristeza e descrédito. E que há muito machismo, estupidificação e alienação nestes formatos que ainda ocupam boa parte da grelha dos principais canais televisivos.
Pai de 3 filhos, Francisco, Ema e Malu, Manel conta que sempre achou toda a vida que o que queria mesmo era ser avô. O seu avô paterno era culpado disso por ter as mãos que tinha, umas mãos bonitas que tocavam violino e que também ajudavam a trepar árvores e definitivamente a sua avó materna que lhe passou o valor da escrita, da família, da amizade, do riso, da boa disposição e que foi, sem dúvida alguma a pessoa mais importante da sua vida sempre. E aqui ela é recordada.
Outro nascimento importante a registar é o da sua produtora Coyote Vadio, em 2012, com quem atualmente dirige com a sua parceira de crime, Andreia, um casal apostado em dominar o mundo. Ou pelo menos apostados a gostarem um do outro e do que fazem.
Foi em 2020 que assinaram a primeira série em nome próprio: “Até que a Vida nos Separe”, vendida à Netflix, vista do Japão até à Jamaica.
Com a série, Manel conta que despertaram interesse nos pares. Sobretudo actores e actrizes que queriam ver como é que trabalhávamos.
E ficamos a saber que a série satírica “Pôr do Sol”, que contava a história Família Bourbon de Linhaça, nasceu de um momento curto sem trabalho, em que buscava novas ideias com faísca.
Ligou ao amigo Rui Melo para bater bola sobre o que poderiam fazer, e o resto é história. E Manel conta aqui como tudo aconteceu até sair esta série que se tornou um fenómeno de popularidade, a brincar com o que há de mais absurdo nas novelas.
Seguiram-se três anos de loucura e popularidade insana e a purga das novelas no seu passado a fazer todo o sentido!
Como sabem, o genérico é assinado por Márcia e conta com a colaboração de Tomara. Os retratos são da autoria de Nuno Fox. E a sonoplastia deste podcast é de João Ribeiro.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.