Feijó, que intervinha numa videoconferência organizada pelo Instituto de Estudos de Segurança (ISS, na sigla em inglês) sobre "A maldição dos recursos de Cabo Delgado: para além do gás natural", reconhece que falar em conversações em Moçambique continua a ser um tabu.

"Não haverá desenvolvimento com esta insegurança. Temos de acabar com esta guerra e iniciar conversações com os rebeldes. Temos de saber quem são os líderes e falar com eles", afirmou.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

Ciente de que os problemas em Cabo Delgado não começaram com os ataques rebeldes, João Feijó considerou que a atividade insurgente coincidiu com o controlo da exploração dos recursos naturais pelo Estado.

Esta relação de causa-efeito foi alimentada pela contínua falta de políticas de desenvolvimento para a população daquela província, com o consequente falhanço em responder às expectativas locais de que o investimento estrangeiro se traduziria no aumento da qualidade de vida das populações.

Borges Nhamirre, consultor do ISS, que participou igualmente na videoconferência, considerou que agora que se aproxima o fim da época das chuvas é de prever o aumento da atividade insurgente, não só em Cabo Delgado, mas igualmente noutras províncias, como aliás já aconteceu com o alastramento de incursões no Niassa.

Daí que a presença de militares estrangeiros em Moçambique "esteja para continuar".

A jornalista e ativista social Fátima Mimbire defendeu no evento que os esforços de segurança em curso no norte de Moçambique "devem colocar as populações locais em primeiro lugar".

"As empresas interessadas em investir em Cabo Delgado devem apoiar os esforços de assistência aos deslocados internos e garantir o retorno em segurança das comunidades", defende.

Fátima Mimbire disse ainda ser imprescindível "apostar no desenvolvimento e no investimento" em Cabo Delgado e pôr termo à negligência com que o Estado central tem tratado aquela região.

"Finalmente, precisamos de um diálogo nacional para discutir a insegurança e encontrar soluções comuns e mobilizar as pessoas para trabalharem juntas para acabar com a guerra. Tenho tanto medo que este último seja difícil porque parece que há alguém lucrando com isso", destacou.

Há cerca de 750 mil deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4.000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED.

Desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) permitiu recuperar zonas onde havia presença de rebeldes, mas a fuga destes tem provocado novos ataques noutros distritos usados como passagem ou refúgio temporário.

EL // LFS

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